Ygor Sylva, o jovem ator a quem a palavra desafio não amedronta

Por Myke Guilherme

Foto: Alan Sousa

Quando perguntado sobre sua formação no Porto Iracema das Artes, Ygor Sylva não hesita: “foi um sonho realizado”. De fato, chegar até aqui foi uma realização para ele, que precisou vencer a distância, o tempo e a timidez. Formado na última turma do Percurso de Artes Cênicas do Porto, em 2017, Ygor é exemplo de determinação. Conheça a história desse Navegador.

“FOI DE CARA”

A paixão do jovem tímido pelo teatro começou por acaso, mas de maneira avassaladora. Quando surgiu a ‘proposta-convite’ da professora de Português para que a sua turma participasse da clássica peça shakespeariana “Romeu e Julieta” na feira de ciências, ele não teve dúvidas em aceitar. Estava ainda no começo do primeiro ano do ensino médio na Escola José Alexandre, na pequena comunidade Capuan, em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, e, como menino curioso que é, Ygor viu ali uma oportunidade de experimentar algo diferente.

Na pele de Leopoldo, amigo de Romeu, em sua primeira vez frente a uma plateia, Ygor sentiu instantaneamente, e não havia mais volta: havia se apaixonado pela atuação. “Foi de cara. Foi ali que eu comecei a gostar de teatro, que pensei em levar à frente. Foi ali que me apaixonei, que me apeguei”, relata com uma confiança que lhe parece inerente, apesar da timidez. Surgia o sonho. Bastou o primeiro passo e o jovem não parou mais. Depois de “Romeu e Julieta”, ainda realizou participações em outras peças da escola, sempre com o incentivo de amigos e professores, que começaram a indicar cursos de teatro a Ygor.

“FOI UMA FACADA NO MEU CORAÇÃO” 

Foto: Alan Sousa

Por meio dos amigos, acabou descobrindo o Porto Iracema. No site da Escola, descobriu os Cursos Básicos de Artes Cênicas, que estavam com inscrições abertas. Era a oportunidade de dar o primeiro passo efetivo na formação de ator. Não teve dúvidas, pensou: “vou fazer”. Era 2016. Fez a inscrição, foi aprovado na primeira fase. Passou na segunda etapa e imensa foi a alegria ao ver seu nome na lista final de selecionados. Mas não demorou a surgir o primeiro empecilho. Ygor, com apenas 15 anos à época, não tinha a idade mínima, de 16, exigida para participar do curso. Foi desclassificado. Teria que esperar mais um ano. O que ele fez com determinação e paciência.

365 dias depois, lá estava ele novamente participando do processo seletivo. Desta vez, nada o impediria, a vaga seria dele. Confiante, porém modesto, Ygor atribui à sorte a classificação que, na verdade, é fruto de sua capacidade e de seu esforço. Passou nas primeiras etapas e foi chamado para a entrevista. Na data marcada, no entanto, não pôde comparecer por motivos de saúde. “Me desesperei, me entristeci bastante. Depois de um ano esperando, perder essa oportunidade foi uma facada no meu coração”, relembra com os olhos marejados, como se estivesse revivendo aquela tristeza. Esteve no Porto no dia seguinte, com uma ponta de esperança de que ainda conseguisse realizar a última etapa da seleção. Mas não havia mais jeito; a lista com os classificados já tinha sido divulgada.

Foram dois longos dias angustiado até descobrir que cinco pessoas haviam desistido. Entra em cena aquela que seria sua espécie de madrinha, Ângela Soares, coordenadora do curso, que ligou para Ygor, explicou a situação e perguntou s ele ainda tniha interesse em participar. Não precisou perguntar duas vezes.

“NO COMEÇO FOI MUITO DIFÍCIL” 

Não há como falar de Ygor Silva sem mencionar a sua determinação. Passar no processo seletivo para estudar teatro no Porto foi apenas um dos desafios que ele teve de enfrentar. Permanecer seria a peleja seguinte. Primeiro, teve de mudar o horário das aulas no ensino médio ― até então cursando o segundo ano ― para o turno da noite, já que as aulas de teatro seriam pela manhã. Não foi fácil, mas conseguiu. Porém, a distância entre a casa onde morava e o Porto era o obstáculo maior.

As duas primeiras semanas exigiram de Ygor uma força de vontade que só quem corre atrás de um sonho pode entender. Morando na época com o pai, na comunidade de Santa Rosa, em Caucaia, ele tinha que acordar às 5h da manhã para conseguir estar na sala de teatro às 9h, o que nem sempre era possível. Todo dia eram quatro conduções: duas para ir, duas para voltar, além do percurso que tinha que caminhar entre a casa e o ponto do primeiro ônibus. “No começo foi muito difícil, eu tinha que acordar bem cedo e andava alguns quilômetros para pegar um transporte e conseguir chegar ao curso”.

Vendo o esforço do filho, a mãe, que reside em Fortaleza, “facilitou as coisas”, como diz o próprio Ygor. Por 12 anos, o jovem ator morou com a mãe, na capital, e há 4 estava experimentando a convivência com o pai, no interior. Apesar de gostar de estar com o pai, o convite da mãe para que ele voltasse a viver com ela era a solução necessária para resolver o problema da distância. Era outro um momento de escolha. E, novamente, Ygor decidiu movido pela determinação. Queria esse curso e agora, mais que nunca, ninguém tiraria isso dele.

“RESPIREI FUNDO. É ISSO, EU TÔ AQUI, EU CONSEGUI CHEGAR ATÉ AQUI”

O tempo no curso passou rápido. De repente aquele tímido rapaz se via ali, junto a outros seis colegas, dando vida a quatro personagens nas esquetes do espetáculo Além Aquém Daqui, resultado da formação de sete meses no Porto. “Fiquei nervoso. Mas respirei fundo. É isso, eu tô aqui, eu consegui chegar até aqui. Então, vamos jogar essa energia negativa pra lá e vamos seguir em frente”, relembra.

Aquela luz forte no rosto quase não permitia que ele visualizasse a multidão. Mas Ygor sabia que havia ali um público com olhos atentos a lhe observar. “Me emocionei bastante porque era um sonho que estava realizando. Foi uma sensação boa e, ao mesmo tempo, bateu um frio na barriga de estar pisando pela primeira vez em um palco. com muitas pessoas me olhando. Senti na pele tudo que passei, tudo o que enfrentei para estar ali. Naquela hora, me senti honrado, me senti feliz mesmo por ter conseguido”, resume o rapaz que, junto com outros sete estudantes do curso, forma agora o mais novo grupo cearense de teatro, o Coletivo Grão.

Foto: Alan Sousa

“DAQUI PRA FRENTE”

Atualmente, Ygor segue se apresentando junto ao Grão por teatros de Fortaleza, revivendo em cada apresentação a mesma sensação de frio na barriga da primeira vez. O jovem ator voltou a morar com o pai e está empenhado em concluir o ensino médio. “Este ano vou fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), estou estudando bastante para me sair bem”. Perguntado sobre qual curso pretende fazer, ele ainda não sabe. Mas uma de uma coisa tem certeza: quer virar um “verdadeiro ator”. E pretende realizar outros sonhos, como o de dar uma vida melhor à mãe. Pela determinação de Ygor na busca por seus sonhos, ninguém duvida de que mais esse será alcançado.

Veja abaixo um pouco dessa história contada pelo próprio Ygor: