Diversidade em atos: as possibilidades de criação e desenvolvimento no Laboratório de Teatro do Porto Iracema

Helena Vieira, Henrique Oliveira, Lucivania Lima e Jander Alcântara, ex-integrantes do Laboratório edição 2019, descortinam suas trajetórias como artistas e as temáticas abordadas em seus projetos

Diversidade é a principal marca do teatro cearense, seja pelas múltiplas temáticas, pelas interações com outras linguagens artísticas ou mesmo pelas possibilidades que ele proporciona. É também característica fundamental do Laboratório de Teatro do Porto Iracema das Artes, que em 2020 chega na sua 8ª edição, trazendo na bagagem projetos que vão da ficção à realidade e que perpassam os palcos do Dragão do Mar e as cidades do interior.

Conheça um pouco da diversidade de temas, pessoas e iniciativas que passaram pelo Laboratório ao longo desses últimos anos.

O teatro através do interior de pessoas e cidades

Jander Alcântara traz a marca de sua terra, em si e em suas produções. Nascido em Sobral, descobriu o teatro ainda na infância através da escola. Veio à Fortaleza para se aprofundar na arte, através da universidade e nesse meio tempo conheceu o Porto Iracema.

Foto: Dan Seixas

A entrada não foi de primeira. Tentou a seleção algumas vezes, ainda em Fortaleza, mas sua passagem no Laboratório só aconteceu quando, mais maduro, voltou ao interior e encontrou o coletivo Toca da Matraca, com quem havia trabalhado em outros momentos. Juntos formularam a proposta do projeto Mapa de Flaneur, que ao longo do ano letivo colocou em fricção a biografia da cidade com as biografias de seus performers em um diálogo entre corpo, memória e cidade.

Jander destaca o sentimento de pertencimento em desenvolver uma pesquisa que aborda sua cidade. “Em 2019, três dos quatro projetos vieram do interior do Estado. Foi a primeira vez que nossa cidade participou de uma das linguagens do laboratório”, ressaltou. “O Lab Teatro foi uma imersão na pesquisa do Coletivo. Já vínhamos pesquisando a dramaturgia do espaço urbano e, com as ações do Porto, tivemos a possibilidade de experimentá-la em Sobral e em Fortaleza”. O resultado final foi apresentado na praça pública de Sobral, levando discussões sobre amor, gênero, política e todas as questões que é estar vivo.

Confira o álbum completo da apresentação AQUI.

Política, gênero e história para além dos palcos

O teatro não começa nem termina no palco. As narrativas de suas produções e criadores também não. É o que vemos na trajetória da pesquisadora, dramaturga e ativista, Helena Vieira, proponente do projeto “Onde estavam as travestis na ditadura?”. que integrou o Laboratório de Teatro em 2019.

Foto: Té Pinheiro.

Com uma história baseada na escrita, Helena diz que seu “despertar para o teatro” de forma mais aprofundada aconteceu durante o processo formativo na Escola, que a pôs em relação com outras áreas, como produção e atuação. Sua pesquisa extrapolou os limites da sala de aula e entre as ações que participou na Escola está o Amarrações Estéticas, que visa promover conexões entre os processos criativos desenvolvidos nos Laboratórios. “É fundamental que as linguagens dialoguem, inclusive se influenciando, porque o que a gente vive mesmo é um período que é translinguagem, que a linguagem artística atravessa as fronteiras de uma arte em específico”.

O projeto realizou uma imersão e investigação artística a partir da perspectiva dos corpos LGBTs nos chamados “anos de chumbo”. Com base na vivência, Helena ressalta o poder da arte para a visibilidade de questões sociais. “É importante visibilizar temas das minorias sociais, visibilizar temas da cidade, visibilizar temas do Estado. Ela possibilita que, na linguagem artística, esses temas sejam ditos e perspectivas nunca antes vistas sejam abordadas.”

Confira o álbum completo da apresentação AQUI.

As fronteiras entre teatro e cultura popular
A história de Henrique Oliveira perpassa duas linhas que, apesar de distintas, convergem em arte. Teatro e cultura popular são, para ele, sinônimos desde a infância. “Eu comecei a participar do teatro sendo brincante de bumba meu boi, teatro de mamulengo, teatro de máscaras, de panpangu, dentro da cultura popular, com os mestre da minha cidade, Quixeré”. Ele cresceu e o gosto pela coisa também. Passou a aprofundar-se na pesquisa teatral, envolveu-se com grupos e movimentos teatrais, como é o caso da Trupe Motim de Teatro, com a qual desenvolveu sua pesquisa no Porto Iracema, e o que antes era diversão tornou-se necessidade.

Foto: Té Pinheiro

A proposta de seu projeto era borrar as fronteiras das linguagens do teatro, das artes visuais, da física mecânica e do misticismo, com o intuito de aprimorar técnicas de corpo, voz e das variadas formas de manipulação de bonecos. Ele destaca que a formação no Laboratório foi ponto chave para abrir seus horizontes. “O Laboratório foi muito importante porque a gente conseguiu aprimorar o trabalho que a gente já fazia como bonequeiro, ator, diretor, em dramaturgia. Conseguimos aprofundar todas as áreas do teatro nessa experiência”.

E conclui com uma mensagem para os artistas que pensam em participar nesta edição. “A dica que eu dou para os artistas que estão buscando essa pesquisa pelo Porto é que insistam, que coloquem suas dúvidas, suas angústias, suas inquietações, porque a pesquisa é justamente para isso. Para você ter esses caminhos para serem construídos e clareados a partir das intervenções dos tutores, dos oficineiros”.

Confira o álbum completo da apresentação AQUI.

A negritude feminina em cena
Mulher negra vinda do interior do Cariri. Nos palcos, Lucivania Lima apresenta não só sua história, mas também a das mulheres de sua região. A artista integrou o Laboratório de Teatro 2019 com o projeto “Negritude feminina na Tribo Kariri”, desenvolvido junto ao coletivo “Iamís Kariri”. “O projeto junto ao Porto Iracema foi extramamente importante por conseguirmos dialogar com outras esferas que a gente vinha desenvolvendo nos nossos encontros iniciais e eu digo com muita clareza que tudo isso foi construído a partir da base proposta pelo Laboratório de Teatro da Escola”, destaca.

Foto: Té Pinheiro

A pesquisa perpassa a tradição dos corpos femininos negros, transcrita nas chamadas “mestras da cultura”, como as que participam do movimento de guerreira, através dos reisados e das mulheres batateiras. Sobre a construção do projeto, a artista destaca a importância da dramaturga, preparadora de atores e pesquisadora da cultura africana no Brasil, Onisajé, tutora do grupo. “Ela trabalha diretamente com a ideia de negritude na cena e tem um foco incrível sobre o trabalho do ator, que tem como referência o corpo do candomblé”, diz.

Confira o álbum completo da apresentação AQUI.

Sobre o Laboratório de Teatro
O Laboratório de Teatro tem como objetivo fomentar o desenvolvimento de projetos que articulem pesquisa e criação, proporcionando cruzamentos entre a prática teatral, em suas diversas dimensões (direção, interpretação, formação de artistas, cenografia, etc), e reflexões estéticas e conceituais.

As inscrições para a 8ª edição dos Laboratórios de Criação estavam originalmente abertas até o dia 19 de março e foram prorrogadas até 05 de abril (confira AQUI o novo cronograma). Em 2020, serão desenvolvidos 29 projetos, divididos em Artes Visuais (8), Cinema (6), Dança (5), Música (5) e Teatro (5) – sete a mais que nas edições anteriores. Além disso, artistas cearenses terão acréscimo na ajuda de custo, que passará a ser de R$ 1.000,00 por mês.

Em todas as linguagens, há uma bonificação extra para projetos vindos do interior do Estado, incluindo Região Metropolitana de Fortaleza, e, no caso dos Labs de Teatro e de Dança, também há concessão de bônus específicos para artistas que comprovarem trabalho conjunto e continuado de pelo menos quatro anos. A submissão de projetos deve ser feita exclusivamente pelo site da Escola.

Confira AQUI o regulamento do Laboratório de Teatro.

Em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail: coordenacaolabteatro@gmail.com

Sobre a Escola
O Porto Iracema das Artes é a escola de formação e criação em artes do Governo do Estado do Ceará, ligada à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, sob gestão do Instituto Dragão do Mar (IDM). Criada em 29 de agosto de 2013, há seis anos desenvolve processos formativos nas áreas de Música, Dança, Artes Visuais, Cinema e Teatro, com a oferta de Cursos Básicos e Técnicos, além de Laboratórios de Criação. Todas as ações oferecidas são gratuitas.

SERVIÇO

O que: Inscrições abertas para os Laboratórios de Criação 2020
Quando: prorrogrado até 05 de abril de 2020,
Confira o novo cronograma AQUI
Inscreva-se AQUI
GRATUITO

Assessoria de Comunicação Porto Iracema das Artes | Rafaela Leite
Publicado em 13/03/2020