As idas e vindas de Monique Cordeiro para a sensibilização em artes

Foto: Té Pinheiro

Professora da rede estadual de ensino, Monique devolve aos alunos formação que recebe no Porto Iracema das Artes e em outros equipamentos públicos em forma de reflexões críticas

“Primeiro foi o corpo. Depois foram as imagens – música também. Todos os elementos que não a palavra. A palavra veio depois.” Assim, em tom poético não-intencional, uma professora de língua portuguesa descreve seu recém-descoberto processo criativo para a produção de textos dramatúrgicos. Na triangulação traçada por suas andanças entre Cidade dos Funcionários, onde mora, Parangaba, onde ensina a adolescentes de escola pública, e Praia de Iracema, onde está o Porto Iracema das Artes e onde ela aventurou-se a navegar no profundo de suas inquietudes internas, Monique Cordeiro, 33, encontra na arte, em especial na escrita, a fórmula para despertar o potencial de criação que ela sabe que existe em cada ser humano.

Mas não sem antes desconstruir seus próprios paradigmas. Difícil reconhecer-se como escritora. Que substância tão especial teria em um texto seu que a tornaria uma dramaturga, com todo o peso da palavra? “Não, dramaturga ainda não”, diz a mulher que acaba de escrever uma peça de teatro com um prólogo e nove cenas, elogiada por seus formadores – trabalho final do Ateliê de Escrita Dramática, percurso oferecido pelos Cursos Básicos de Artes Cênicas e de Audiovisual do Porto Iracema das Artes entre abril e julho de 2019. Insegurança ou humildade? Talvez um pouco dos dois. Fato é que Monique tem um pulsar inominável que a atrai para a escrita e que a atiçou desde criança, revelado seja em crônicas, poesias ou em cartas de amor que sempre escreveu.

Uma arte que transforma
Egressa de um percurso muito acadêmico, no campo da linguística, o Porto Iracema lhe serviu como um lugar de liberdade. “Estar aqui no Porto me fez perceber, timidamente, como artista”. Aliás, a arte é para ela lugar de transformação, explica. Primeiro, vivenciava-a de forma mais distante, como exímia espectadora. Depois, experimentou estar do outro lado do palco, como sua própria feitora. E lá vai Monique Cordeiro aprender a contar histórias, depois a colocá-las no próprio corpo, para em seguida aprender a escrever outras mais. “Hoje estou mergulhada. E eu levo isso para a minha prática na escola”, revela.

É que Monique fez do Porto um lugar que não serve só ao seu engrandecimento pessoal. Ela tem a necessidade de compartilhar experiências com seus alunos de ensino médio, durante as aulas de Português que leciona na escola profissionalizante Joaquim Moreira de Sousa. Lá é seu laboratório. O Porto, um intercâmbio. Ela toma como função semear a arte. “Os meus alunos chegaram ao teatro, eles viram peças, eles sabem que eu produzo textos dramatúrgicos, eles sabem desse potencial de criação que cada ser humano tem”, conta, agradecendo ao Porto pela contribuição que lhe cabe.

E complementa. “Considerando esse momento em que a gente vive, é extremamente importante tomar para a gente a condição de criar e de transformar. Mesmo quando a conjuntura pareça tão absurda. Ser expectadora, ser aprendiz, me ajuda a estar num lugar de aprender. E quando eu estou no meu lugar de ensinar, eu levo esse meu lugar de aprendizado para que os adolescentes entendam que eles têm esse potencial criador, e as mulheres e meninas especialmente.”

Dramaturgia como possibilidades
O envolvimento mais íntimo de Monique com o teatro e a dramaturgia começou no Curso de Princípios Básicos de Teatro (CPBT) do Theatro José de Alencar. Antes, já frequentava outros cursos de escrita criativa, como um curso de dramaturgia feminina na Vila das Artes e um outro de Contação de Histórias na Escola de Narradores. Em todos esses espaços, já ouvia falar sobre as atividades do Porto Iracema.

Agora ela escreve cada vez mais. “Não só a peça, mas poemas e cartas”, diz, reforçando que seu caminho como escritora está em construção. Seu texto mais recente, produzido no Ateliê de Escrita Dramática do Porto Iracema, conta a história da personagem Nina, jovem recém-formada que encontra no mar outra realidade possível. “Uma mulher que se transformava, que vivia numa situação de secura, tanto física, territorial, quanto psicológica e emocional. E com o passar do tempo, por algumas situações, ela vai se tornando mais úmida, mais fértil, mais criativa. E aí ela vira peixe. Quando ela encontra o mar na jornada que ela faz, de se deslocar de um lugar para o outro”, adianta a professora.

Quando entrou no Ateliê de Escrita Dramática do Porto, seu envolvimento com formas poéticas de imaginar o mundo e de encantar outras pessoas através da escrita criativa teve o diferencial que ela precisava naquele momento. Foi a porta de entrada para que Monique imediatamente participasse de outras atividades na área de teatro. “Eu gosto de buscar o caminho da poesia, da crônica e agora da dramaturgia”, conclui, como quem diz que pretende despertar em mais pessoas, por meio da arte, as sensibilidades escondidas em cada uma. Mas não diz sem o habitual sorriso.

“No mar, eu me transformo.
Sou mulher-peixe
Viro Sereia
Viro Baleia
No Mar
Sou eu no profundo…”

(Monique Cordeiro – 10/07/19)
Texto feito de improviso a pedido da equipe de produção do Navegadores. Monique o entregou ao mar.

Confira o vídeo gravado pelo Núcleo de Audiovisual (NAVE):

 

Assessoria de Comunicação Porto Iracema das Artes | Lucas Casemiro