As fotografias de si e a arte despertada entre afetos no Porto Iracema

Foto: Sidnei Maia

Por Pedro Victor Lacerda

Na primeira edição do Navegadores em Quarentena, integrante do Programa de Fotopoéticas durante o primeiro semestre de 2019, e do Preamar no segundo, Sidnei Maia fala ao Nave sobre as memórias e experiências de vida com a água e suas simbologias nos seus processos de criação

É da lembrança de um episódio de infância com a água que parte a inestigação para os autorretratos fotográficos, os desenhos e as pinturas de Sidnei Maia. Fluíram junto da memória significados para si durante a criação artística que viria a integrar a exposição “Pequenas invenções para existir no mar”, do Preamar de Fotopoéticas e Artes Visuais. No agora, em isolamento social na pandemia de Covid-19, o sentimento que predomina é o de solidão, do qual busca escape, e reserva aos processos artísticos – com pedras de rios e cachoeiras recolhidas antes da pandemia – uma forma de representar “o peso da permanência de estar confinado”.

Sidnei relata tudo ao Núcleo de Audiovisual (Nave) por meio de uma vídeo-chamada. A experiência mediada pelo virtual, agora, possibilita a continuidade das entrevistas dos Navegadores do Porto Iracema, pensada para retratar também o período atual de quarentena.

 

Autorretrato: Sidnei Maia

Sidnei transparece a sinceridade de como acontecimentos pessoais lhe atravessam e quais sentimentos despertam. O episódio de infância em questão, na realidade, foi um afogamento em uma praia, e dos sonhos recorrentes que tinha a partir dessa experiência, da predominância da cor azul da água, Sidnei busca “traçar estratégias de sobrevivência a partir desse azul, a partir dessa água”. “Pra me colocar como uma infiltração, como que escorre, né”, complementa, relacionando a questões identitárias importantes.

Tendo integrado o PREAMAR de Fotopoéticas durante o segundo semestre de 2019, após a formação no Percurso de Fotografia Digital no começo do ano, às experimentações com a água e o azul, com as fotografias de si feitas, Sidnei associa esses processos e suas reflexões. Entendendo-se como uma pessoa que flui entre o feminino e o masculino, revela que perdeu “muito o acesso a algumas informações sobre gênero, sexualidade, política. E aí, lá no Porto, eu encontrei muitas referências, né. Tive contato com pessoas trans, com pessoas não-binárias. Acho que é aí que eu começo a me olhar enquanto artista”.

Foto: Sidnei Maia

Olhando a tela que possibilita momentaneamente a conexão, discorre sobre as criações atuais, e também que os autorretratos de outrora, produzidos para o Preamar, não se fazem mais tão presentes nas produções durante a quarentena. Nas pedras dos rios e cachoeiras, Sidnei escreve palavras que simbolizam os afetos que, por agora, não se fazem possíveis, traçando linhas azuis de tinta entre os materiais então nomeados. Uma forma de “atravessamento”, elabora. Tornando próximo as trocas, os lugares e os sentimentos de antes.

 

 

Assista ao vídeo completo, produzido e editado pelo Nave, com o relato de Sidnei Maia: